domingo, 21 de agosto de 2011

Proibir X Educar

Já faz alguns meses que vemos, através dos meios de comunicação, a discussão sobre se devem ser banidas definitivamente as medicações anorexígenas (também conhecidas como inibidores de apetite) ou se as mesmas devem continuar sendo prescritas por médicos, profissionais capacitados para tanto, sob estrita vigilância através das fichas B2 ou quaisquer outros métodos propostos. A ANVISA está tendendo, ferozmente, a escolher pelo banimento definitivo destes medicamentos.

E daí?

Observe bem: não sou grande prescritor de anorexígenos. Repito: NÃO SOU GRANDE PRESCRITOR DE ANOREXÍGENOS. Só os utilizo como ferramentas terapêuticas quando meu paciente apresenta uma necessidade muito específica como, por exemplo, incapacidade plena de seguir um programa alimentar sem este auxílio medicamentoso. São pouquíssimos os casos onde realmente preciso lançar mão desse recurso, mas eles EXISTEM.

Alguns colegas que, inclusive, tratam muito mais pacientes com obesidade do que eu, fazem um uso ainda mais frequente desses medicamentos. Quando usados corretamente, por profissionais éticos e atentos às reais NECESSIDADES, e não DESEJOS, de seus pacientes, tais medicamentos são tremendamente úteis e bem vindos.

São tão nocivos quanto quaisquer outros, se utilizados incorretamente. Uma das moléculas lícitas que mais males causou a pessoas em todo mundo até hoje é o paracetamol, se tornando o maior causador de insuficiência hepática nos Estados Unidos. Este remédio, fraco analgésico e fraco para baixar e manter baixa a febre, foi até indicado nas propagandas para ser utilizado contra a Dengue! A doença já ataca o fígado e absurdamente te dizem pra usar um medicamento que pode acabar de detonar ele! Que associação inteligente, não?!

Proibir os anorexígenos, além de ser uma limitação a mais para o trabalho médico, vai criar um mercado negro dessas drogas, como já acontece com muitas outras. Hoje, são medicamentos baratos e vendidos com receita controlada B2. Se forem proibidos, vão ter seus valores elevados nas mãos de traficantes inescrupulosos e um monte de jovens mal orientados vão fazer uso sem que suas famílias e médicos saibam. Isso sim é perigoso!

Será que é tão difícil perceber que o único benefício que se pode gerar, na verdade, é a educação real do público e dos profissionais de saúde a respeito dessas medicações? Só através da conscientização podemos trazer segurança ao uso de qualquer substância. Vai doer tanto assim fazer campanhas educativas eficientes, tanto para leigos quanto para profissionais da saúde e, finalmente, FISCALIZAR ADEQUADAMENTE ESSA RELAÇÃO?

Essa conduta paternalista, de proibições, já faz parte do nosso dia a dia de trabalho. Parece que todos os médicos, e também os pacientes, sofrem de algum retardamento mental e não podem tomar decisões sozinhos. São proibidas substâncias sem grandes motivos e, algumas que são potencialmente perigosas, circulam livremente, inclusive sem necessidade de receita, ou alguém acha que não há risco em consumir uma cartela inteira de AAS 500mg?! Vende na farmácia sem nem receita. Isso não é fiscalizado.

A realidade dos suplementos nutricionais no nosso país continua em meia-trava porque, apesar dos esforços de mestres nas áreas de medicina, nutrição e bioquímica para esclarecer o assunto. Os argumentos de "ainda não há estudos que comprovem..." são sempre os mesmos. Será que as agências reguladoras do Japão, da Alemanha e dos EUA são menos competentes do que a ANVISA por liberarem estas substâncias para o uso com a devida orientação?
Finalmente, só me resta crer que muitos se pautem em uma coisa: o lema "é mais barato e fácil proibir do que fiscalizar eficientemente e educar". Que raciocínio raso para basear condutas para toda uma nação, não?